REPROVAÇÃO - TABU NÃO RESOLVIDO
"No meu tempo que era bom! Quem não sabia a tabuada de cor e salteado REPROVAVA! Queria ver não aprender!"
Que triste isso, o tempo era horrível, havia um grande funil de oferta de vagas na escola, poucos professores e poucas escolas, então havia uma "maquiagem" nos dados escolares e a reprovação servia para disfarçar a INCAPACIDADE de oferecer educação para a população com uma massa esmagadora de analfabetos. Sim, era por isso que quem não decorava a tabuada do 7 era reprovado, não porque era burro, não tinha se atentado a isso?
E agora? Agora o sistema conseguiu atingir um número "satisfatório" de ofertas de vagas, tanto pela expansão de escolar públicas como pela expansão das redes particulares de ensino. Qual o problema disso? Para sustentar essa máquina pública sem afetar os desvios de verba, os cargos não poderiam ter um salário justo, Veja só: Nível Médio - Escrivão do TJSP - Salário inicial R$5600,00 / Nível Superior - Professor da Educação Básica do Estado de SP - Salário inicial (com carga completa de 4h) R$ 2800,00 (bruto, líquido não chega aos 2300 se não pegar aulas noturnas).
Mas o que tem haver o salário com a REPROVAÇÃO, perdeu o foco professor? Não, mas com o baixo salário, várias pessoas que teriam um grande potencial didático/pedagógico deixam de estudar seus 3 a 5 anos para formar em uma licenciatura e estudam 3 a 5 anos para passar no concurso de nível médio que paga o DOBRO. Muito mais inteligente do que a outra opção, também conta com os recessos do judiciário e não vai ter L.E.R. ou Tendinite por conta da lousa e giz.
Isso traz para a educação pessoas que "sabem muito, mas eu não entendo o que ele fala". Sabem aquele professor (mesmo que da faculdade) que você sabe que ele entende TUDO, mas não consegue te fazer entender NADA? Pois é. Com a grande necessidade de professores e a baixa procura, não podemos peneirar com a famosa ferramenta da "meritocracia" isso traz gente com baixa capacidade de liderança para ensinar, e desmotiva as pessoas de se destacarem com grandes projetos educacionais. CLARO que existem pontos fora da curva, como é o exemplo de TODOS os leitores desse blog, mas são um percentual baixo.
Imagine que uma classe ficou SEM PROFESSOR de português por um ano letivo INTEIRO! Sim, isso acontece, a solução é pegar um professor que não necessariamente entende de Letras, e nem sequer fez Licenciatura, um adulto comum com grande aptidão em, vamos dizer, ENGENHARIA QUÍMICA! Não estou dizendo que o engenheiro químico não sabe de língua portuguesa, mas definitivamente não é para dar esse tipo de aula que ele se preparou. Ele poderia estar inventando um biocombustível, purificando o rio tietê ou analisando a mineralogia de marte para uma possível ocupação... Mas esse profissional de alto gabarito ficou desempregado, perdeu a habilitação e não pode mais fazer uber, divorciou, e alguém falou que poderia dar aulas como EVENTUAL na rede pública. Obviamente, ele pensou "Ora, eu posso dar maravilhosas aulas de química, matemática e até de física!" mas só sobrou um claro de Língua Portuguesa, então foi parar lá.
Veja só, essa turma passa meses sem aula nenhuma, a "aula vaga' e surge um professor eventual para cobrir esse buraco, ele se dedica, se debruça sobre os materiais, mas qual a intimidade dele com ditongos e hipérboles? Pois é, essa classe vai ser extremamente injustiçada pelo sistema se ela for reprovada por não saber o conteúdo de língua portuguesa que o sistema não conseguiu alguém apto para ensinar. Portanto, é injusto reprová-los.
Outro ponto da reprovação é o acompanhamento idade-série. Por mais que o aluno tenha dificuldades, mude de escola e fique sem professores por longos períodos, descompassar sua idade e série como um aluno de 20 anos no 4º ano do ensino fundamental, em uma sala com crianças de 9 anos, é coerente? Não, isso desestimula, isso de faz criar REPULSA da escola. Você está virando adulto, cheio de responsabilidades, e vai fazer trabalho em grupo com crianças que nem amarrar o cadarço sabem? Para impedir que esse descompasso ocorra, há uma tolerância de aprovação, mesmo com "dependências" em várias matérias, para estimular esse aluno a PERMANECER na escola! Trágico, passar alguém que tem nota 1 em 4 ou 5 disciplinas, mas é melhor do que ficar reprovando ele até estar grande demais para conviver com gente de sua idade.
Ah, professor! Faz esse jovem estudar direito! Sim, concordo, mas aí entramos em outro problema, o aluno não vai poder estudar direito, porque em casa falta água e energia, falta comida, ele só vai para a escola porque lá tem uma refeição (a merenda) que alivia a família de ter um a menos para comer naquele dia. Essa criança tem deficiências nutricionais extremas que comprometem sua atenção, cognição e aprendizagem. É justo reprovar alguém que passa fome?
Tá bom, mas esse é ponto fora da curva! E aqueles "maloqueiros, vagabundos" que nada fazem, só bagunçam e agridem os colegas?
Pois é, não sou nenhum santo, também tenho vontade e mandar alguns alunos para "aquele lugar", mas quando o sangue esfria, percebemos que esse aluno por vezes sofre com a violência doméstica, vê sua mãe apanhar, apanha junto, é violentado ou exposto a drogas. A culpa é dele, todos têm escolhas, mas uma criança de 10 anos que é agredida e violada desde bebê às vezes não tem esse discernimento todo. Vale reprovar esse delinquente? Vai ajudar quem? Ele vai aprender melhor sobre os Astecas e isso mudará sua vida radicalmente? Ou a palavra de Baskara irá trazer iluminação para sua existência?
Eu sou a favor de reprovação, apesar de todo esse texto, enxergo a progressão como uma correção ineficiente. Mas para reprovar, teríamos que estar alinhados com a insegurança alimentar, com a proteção da infância e da juventude, com a assistência social e com a família (se houver). A escola é um dos lugares onde mais vemos o início dos problemas da sociedade, observamos semanalmente jovens alterando seus comportamentos, atitudes e desempenho. É muita inocência achar que o problema ou a solução da educação estar ou não na reprovação. É um peso muito grande para o engenheiro que perdeu a habilitação.
E aí, REPROVA ou NÃO REPROVA?
Texto do Profº Gustavo H. Leão de Mello
PS: Ia falar sobre a aprovação durante a pandemia, mas não preciso especificar, né? Vocês já dever ter pego o espírito da coisa...
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